O dia em que Santos cheirava a café queimado

Em setembro de 1931, enquanto a crise abalava o mercado cafeeiro, montanhas de grãos ardiam na Alemoa e espalhavam sobre Santos a fumaça de uma das mais dramáticas medidas adotadas para conter a queda dos preços.

Santos, 27 de setembro de 1931. Naquele domingo, o cheiro do café pairava sobre a cidade de uma forma que os santistas conheciam bem, mas por uma razão que contrariava tudo aquilo que o produto representara até então. O aroma não tinha origem nos armazéns, nas tulhas ou vinha das sacas movimentadas entre a ferrovia e o cais. A pouca distância da cidade, nos mangues da Alemoa, verdadeiras montanhas de grãos ardiam havia meses, lançando para o céu uma fumaça espessa que podia ser avistada à distância. O café, símbolo de riqueza e responsável por boa parte da transformação histórica de Santos, estava sendo lançado ao fogo.

Naquele fim de semana, as chamas continuavam acesas dia e noite. Quem chegava a Santos ao anoitecer podia enxergar, em direção aos mangues e ao canal do porto, uma extensa linha avermelhada recortando a escuridão. Durante o dia, era uma nuvem que se levantava sobre os montes em combustão, uma paisagem difícil de compreender. Durante décadas, a cidade construíra armazéns, ferrovias, bancos e um gigantesco porto para fazer o café circular. Agora, parte desse mesmo produto encontrava o caminho da destruição.

Uma crise que atravessara o oceano

A economia cafeeira brasileira já sofria com a superprodução quando a crise mundial iniciada em 1929 (com a quebra da Bolsa de Nova Iorque) agravara dramaticamente a situação. O país estava produzindo mais café do que o mercado internacional conseguia absorver e, com a retração do consumo e a queda dos preços, enormes estoques haviam começado a se acumular. Santos sentiu o impacto imediatamente, pois grande parte da estrutura econômica da cidade girava em torno da exportação do produto.

Na edição daquele 27 de setembro,o jornal A Tribuna registrava que a praça comercial de Santos praticamente paralisara. A falta de câmbio dificultava os negócios, exportadores encontravam problemas para estabelecer preços em dólares e o ambiente era de inquietação. Enquanto comerciantes tentavam manter o café circulando, o governo recorria a uma solução extrema: destruir parte dos estoques para reduzir a oferta.

As fogueiras da Alemoa

A operação que deu origem àquela paisagem havia ganhado força meses antes. Em 7 de junho, a imprensa santista registrou o início de um serviço de incineração de cafés inferiores promovido pelo Conselho Nacional do Café e executado pela Companhia Docas de Santos. Naquela primeira operação documentada, aproximadamente 4.800 sacas, equivalentes a quase 300 mil quilos, haviam sido levadas para a Alemoa.

Cerca de cem trabalhadores participavam da movimentação e onze galeras haviam sido empregadas no transporte. As sacas chegavam, eram descarregadas e o café era despejado em grandes montes sobre o terreno do mangue. Depois vinha o fogo. Representantes do Conselho Nacional do Café acompanhavam o trabalho ao lado de pessoas ligadas ao comércio cafeeiro.

O serviço prosseguiu nos meses seguintes. Em julho, os números já alcançavam centenas de milhares de sacas. Em todo o Brasil, aproximadamente 2,8 milhões de sacas foram eliminadas apenas durante 1931. A lógica era simples e brutal: retirar o excesso de café do mercado para tentar sustentar os preços.

A fumaça sobre Santos

Naquele 27 de setembro, porém, as razões econômicas não conseguiam apagar a força da imagem. O fazendeiro J. Américo Sampaio, ligado à Associação de Lavradores de Jaú, chegou a escrever um artigo justamente sobre a queima. De Santos, descreveu a fumaça que subia das montanhas de café em combustão e escurecia o horizonte.

Seu texto foi também um protesto. Para ele, havia algo profundamente contraditório em destruir café enquanto produtores enfrentavam dificuldades financeiras e parte da população consumia produtos de qualidade inferior ao café destruído. A imagem da Alemoa provocava indignação e deixava claro que aquela política estava longe de ser unanimidade.

No dia seguinte, outro jornal registraria a mesma paisagem com palavras ainda mais diretas: quem chegava à cidade durante a noite testemunhava estarrecido o fogo no mangue. O café queimava sem interrupção.

A cena devia ser particularmente desconcertante para uma cidade cuja própria arquitetura contava a história do produto. A Bolsa Oficial de Café, os armazéns, os trilhos e o movimento incessante do cais haviam nascido, direta ou indiretamente, da fortuna proporcionada pelos grãos que desciam das fazendas paulistas. Agora, bastava olhar para a direção da Alemoa para enxergar outra face daquela história.

Quando destruir parecia salvar

A política de intervenção transformara o café em um problema nacional. O Conselho Nacional do Café passara a administrar estoques, controlar parte da circulação do produto e participar das operações destinadas a retirar sacas do mercado. Cinco dias antes daquele domingo, o governo federal chegou a modificar as regras ligadas à taxa cobrada sobre cada saca exportada, mostrando o quanto café, câmbio e decisões governamentais estavam entrelaçados.

Santos estava no centro do processo

Assim, em meio à crise, naquele 27 de setembro de 1931, os santistas, ainda que tristes, viviam suas rotinas. Bondes percorriam as ruas, trabalhadores circulavam pelo porto e famílias ocupavam igrejas e praças. Ao longe, a sombria coluna de fumaça se erguia sobre a paisagem. Era café que ardia. O mesmo café que enriquecera comerciantes, financiara edifícios, movimentara o porto e projetara Santos para o mundo. Um produto que se confundira com a própria identidade da cidade e que, naquele momento, era dolorosamente consumido pelas chamas.

E como em tantas outras noites daquele período, ainda que o sol desaparecesse por trás da Serra do Mar, a escuridão não tomara completamente a Alemoa. As fogueiras permaneciam acesas, lançando seus clarões sobre o mangue e mantendo viva, noite adentro, uma das imagens mais desconcertantes da história do café em Santos.