De uma Constituição municipal pioneira, em 1894, à presença feminina na Câmara, na Prefeitura, na Assembleia Legislativa e no Congresso, Santos construiu ao longo de mais de um século uma trajetória marcante de participação política das mulheres.
Santos, 3 de maio de 1933. A cidade havia amanhecido em dia de eleição. Pelas ruas, homens de paletó e chapéu seguiam para as seções eleitorais, mas uma presença nova chamava a atenção: mulheres também caminhavam em direção às urnas. No dia seguinte, A Tribuna registraria que o “elemento feminino compareceu em grande número” e publicaria fotografias de duas senhoras santistas no momento em que cumpriam, como dizia a legenda, seu “dever cívico junto às urnas”. Dos 10.146 eleitores inscritos na comarca, 9.218 haviam votado, comparecimento de 90,8%. O número reunia homens e mulheres, mas foi a estreia feminina que ganhou destaque especial.
A eleição para a Assembleia Nacional Constituinte acontecera pouco mais de um ano depois do Código Eleitoral de 1932 reconhecer às brasileiras o direito de votar e serem votadas. Nas seções santistas, a novidade parecera ser recebida com naturalidade. A Tribuna observara que a presença feminina dava ao ambiente maior respeito e urbanidade e relatara até homens cedendo lugar às mulheres. Aquelas fotografias preservaram algo maior do que uma eleição: registraram o instante em que a mulher santista, depois de permanecer por tanto tempo às margens das decisões políticas, aparecera diante da urna como eleitora.
Santos havia se antecipado em quase quatro décadas
A cena de 1933 guardava uma curiosa ligação com uma experiência ocorrida 39 anos antes. Em 15 de novembro de 1894, os vereadores haviam aprovado a Constituição Política do Município de Santos, numa época de enorme efervescência política e de defesa da autonomia municipal. Entre suas disposições, o artigo 42 incluíra expressamente “as mulheres sui juris” entre aqueles que poderiam ser eleitores municipais. O direito constara, portanto, do próprio texto constitucional santista.
A ousadia tivera vida curta. A Constituição de Santos fora contestada e acabaria anulada pelo Congresso Legislativo do Estado de São Paulo. Permanecia, entretanto, uma pergunta fascinante: alguma santista conseguira efetivamente alistar-se ou votar durante aquela breve experiência? O documento comprovava a existência do direito, mas ainda faltava localizar o nome de uma mulher que o tivesse exercido. De qualquer maneira, quando as santistas chegaram às urnas em 1933, a cidade reencontrava uma ideia que já havia colocado no papel no século XIX.
Da urna para a Câmara Municipal
Não demorara para que as mulheres passassem de eleitoras a eleitas. Em 1936, a professora Zeny de Sá Goulart conquistara uma cadeira na Câmara Municipal e se tornara a primeira vereadora da história de Santos. Seu mandato fora interrompido pelo Estado Novo, que fechara os legislativos em 1937, mas Zeny retornaria à Câmara depois da redemocratização. O caminho aberto por ela seria percorrido, nas décadas seguintes, por outras mulheres, embora a representação feminina permanecesse durante muito tempo bastante reduzida.
Em 1947, outra santista ultrapassara as fronteiras municipais. Zuleika Alambert, nascida em Santos, chegara à Assembleia Legislativa paulista ainda muito jovem, inicialmente como suplente e depois no exercício do mandato. Sua atuação fora interrompida em 1948, com a cassação dos parlamentares comunistas, mas sua passagem pela Assembleia deixara outro marco na presença política feminina ligada à cidade.
Uma mulher assumiu a Prefeitura
A participação feminina ganharia nova dimensão nos anos 1980. Eleita vereadora em 1982 e deputada estadual em 1986, Telma de Souza vencera a eleição municipal de 1988 e, no ano seguinte, tornara-se a primeira mulher a governar Santos. A partir daí, construiria uma das trajetórias eleitorais femininas mais extensas da história da cidade, com sucessivas passagens pela Câmara Municipal, pela Assembleia Legislativa e pela Câmara dos Deputados.
Outras mulheres ampliariam aquele espaço. Maria Lúcia Prandi se tornara, em 1993, a primeira mulher a presidir a Câmara de Santos, antes de cumprir quatro mandatos como deputada estadual e chegar também à Câmara dos Deputados. Mariângela Duarte passara igualmente pelo Legislativo santista e alcançara Brasília. A política da cidade, embora ainda predominantemente masculina, já não podia mais ser contada sem suas vereadoras, deputadas e lideranças femininas.
Uma presença que já não era exceção
A cadeira conquistada por Zeny de Sá Goulart em 1936 abrira uma passagem que, embora lentamente, nunca mais se fecharia. Depois dela, passaram pelo Legislativo santista Graciana Miguel Fernandes, Hilda Augusto de Souza, Telma de Souza, Gemma Rebelo, Maria do Perpétuo Socorro, Suely Maia, Mariângela Duarte, Maria Lúcia Prandi, Luzia Neófiti, Cassandra Maroni Nunes, Suely Morgado, Sandra Arantes do Nascimento e Fernanda Vannucci. Nas décadas seguintes juntaram-se a essa história Audrey Kleys, Ana Célia da Silva Vieira, Cláudia Alonso, Débora Camilo e Renata Bravo. A própria Câmara preservara parte dessa memória ao registrar nominalmente suas antigas vereadoras, demonstrando como aquela presença feminina, inicialmente solitária, havia se multiplicado com o passar das gerações. OnePage
Entre elas, Audrey Kleys havia sido eleita vereadora em 2016 e reconduzida em 2020, participando de duas legislaturas antes de deixar a Câmara para integrar a chapa de Rogério Santos nas eleições de 2024. Eleita vice-prefeita, assumira o cargo em janeiro de 2025. A legislatura iniciada naquele mesmo ano tivera inicialmente Débora Camilo e Renata Bravo entre as titulares; depois, com licenças e substituições, Cláudia Alonso também voltara a ocupar uma cadeira. A participação feminina continuava numericamente inferior à masculina, mas já atravessava diferentes partidos, gerações e campos políticos.
De Santos para o Estado e para Brasília
A presença das mulheres ligadas a Santos também ganhara força fora do município. Em 2022, a jornalista, professora e advogada Solange Freitas, natural de Santos, fora eleita pela primeira vez deputada estadual, com mais de 80 mil votos, tornando-se naquele pleito a única mulher da Baixada Santista eleita para a Assembleia Legislativa. Quatro anos depois, em outubro de 2026, conquistara a reeleição com 77.524 votos, assegurando sua permanência na Alesp a partir de 2027. Na mesma eleição, Débora Camilo, que havia chegado à Câmara de Santos em 2021 e fora reeleita vereadora em 2024, dera outro salto nessa trajetória: recebera 94.895 votos e também conquistara uma cadeira na Assembleia Legislativa.
Em Brasília, outra santista havia construído percurso semelhante. Rosana Valle, jornalista nascida em Santos, disputara sua primeira eleição em 2018 e fora eleita deputada federal com 106.100 votos, iniciando o mandato em 2019. Reeleita em 2022, chegara às eleições de 2026 buscando pela terceira vez uma cadeira na Câmara dos Deputados e recebera 213.752 votos, garantindo novo mandato a partir de 2027.
Assim, em 2026, a participação política feminina santista já podia ser observada em diferentes esferas ao mesmo tempo. Audrey Kleys ocupava a Vice-Prefeitura, mulheres continuavam exercendo mandatos na Câmara Municipal, enquanto Solange Freitas e Débora Camilo haviam conquistado cadeiras na Assembleia Legislativa e Rosana Valle renovara sua representação no Congresso Nacional. Era um cenário muito distante daquele maio de 1933, quando a simples presença de duas mulheres diante das urnas parecera suficientemente extraordinária para merecer uma fotografia na primeira página do jornal.


