Há 129 anos, o Porto de Santos recebia os combatentes paulistas que participaram de um dos episódios mais sangrentos da história brasileira. A chegada do cruzador Andrada, trazendo centenas de militares e crianças sobreviventes do conflito, provocou manifestações de entusiasmo e deixou registros surpreendentes na imprensa santista.
Santos, 25 de outubro de 1897. Era pouco mais do que 13 horas, quando uma notícia começou a circular pelas ruas de Santos. Um navio de guerra brasileiro havia sido avistado na entrada da barra. Era o cruzador Andrada, que regressava da Bahia transportando os integrantes do 1º Batalhão da Brigada Policial paulista, enviados meses antes para combater os seguidores de Antônio Conselheiro, no sertão baiano. A embarcação trazia os sobreviventes de uma das campanhas militares mais violentas da história do Brasil e sua chegada transformaria o porto em cenário de uma recepção marcada por manifestações patrióticas, reencontros emocionados e algumas contradições.
Os soldados haviam participado da quarta e última expedição militar contra Canudos, conflito que mobilizara o país entre 1896 e 1897. Depois de três tentativas fracassadas de submeter a comunidade sertaneja, o governo republicano organizara uma força de grandes proporções para destruir o arraial de Belo Monte, onde viviam milhares de pessoas sob a liderança religiosa de Antônio Conselheiro. A resistência terminou em outubro de 1897, com a devastação da comunidade e a morte de grande parte de seus habitantes. Para os militares paulistas, a chegada a Santos representava o primeiro contato com a terra natal depois de meses de combates, marchas exaustivas, doenças e privações.
Um cruzador aparece na barra
A movimentação começou quando os sinais do Monte Serrat anunciaram a aproximação de um cruzador nacional. Segundo o Diario de Santos, em sua edição de 26 de outubro, a notícia espalhou-se rapidamente e levou uma multidão às proximidades do cais. Homens, mulheres e crianças procuravam um lugar de onde pudessem observar a chegada da embarcação. Ao mesmo tempo, diversas lanchas a vapor deixaram o porto para encontrar o navio antes que ele fundeasse.
Entre essas embarcações estavam a Paula Pires, da Companhia Docas, a Roberto Vasconcellos, da Alfândega, e a Ipanema, da Comissão de Saneamento. Transportavam autoridades civis e militares, jornalistas, representantes de instituições e integrantes das comissões organizadas na capital paulista para homenagear os combatentes. Na lancha da Alfândega viajavam, entre outros, Amadeu do Amaral, redator de A Nação, Mário dos Reis, repórter do Correio Paulistano, e Juvenal Pacheco, representante do Diario de Santos.

A embarcação da Alfândega foi a primeira a se aproximar do cruzador. À medida que diminuía a distância entre os dois navios, multiplicavam-se as saudações aos soldados, à República e à memória do marechal Floriano Peixoto. Os militares ocupavam o convés e alguns chegaram a subir nas vergas para responder, agitando os bonés, aos cumprimentos que recebiam. Quando as lanchas finalmente se aproximaram do Andrada, começaram os reencontros entre parentes e amigos, separados durante meses por uma campanha cujo desfecho permanecera incerto até pouco tempo antes.
A viagem de volta
O cruzador havia partido da Bahia em 20 de outubro, às 13h30, realizando uma viagem de aproximadamente 121 horas até Santos. O percurso, equivalente a cinco dias e uma hora, foi prejudicado por problemas em uma máquina auxiliar, que obrigaram a embarcação a interromper temporariamente sua marcha nas proximidades dos Abrolhos e no trecho marítimo entre o Rio de Janeiro e São Sebastião.
A bordo estavam 21 oficiais, 36 militares de graduações intermediárias e 381 praças, totalizando 438 integrantes da força paulista. A tripulação do cruzador, comandado pelo capitão de fragata João Baptista das Neves, era composta por outros 115 homens. O comandante do batalhão, coronel Elesbão dos Reis, recebeu numerosas felicitações das autoridades que subiram a bordo. Entre os oficiais que regressavam encontrava-se o major José Pedro, ferido durante os combates de 1º de outubro. Trazia o braço direito apoiado em um lenço preto e apresentava outros ferimentos no peito e na cabeça.
As consequências da campanha apareciam igualmente entre os soldados de menor graduação. Conforme as informações recolhidas pelo jornal santista, 32 praças encontravam-se feridas a bordo do cruzador, enquanto outras dez haviam permanecido em diferentes localidades da Bahia para tratamento. Eram números que ofereciam uma dimensão concreta dos sacrifícios impostos aos integrantes do batalhão. Às 15 horas, o Andrada fundeou diante da Rua Xavier da Silveira, cercado por pequenas embarcações. Na ocasião, a banda do 1º Batalhão executou o Hino Nacional.

A cidade recebe os combatentes
A recepção mobilizou representantes de diferentes instituições paulistas. Um trem especial havia partido da capital às 7h30 daquela manhã, chegando a Santos às 9h50, trazendo autoridades e delegações que desejavam participar das homenagens. Entre elas estavam comissões da Escola Politécnica, do Ginásio Estadual, da Escola Modelo Prudente de Moraes, de estudantes e de representantes da sociedade civil. Muitas conduziam seus respectivos estandartes.
Também compareceram representantes da Câmara Municipal de Santos, da Guarda Nacional e da administração estadual. O coronel Celestino Bastos, comandante da Brigada Policial, esteve entre as autoridades presentes, assim como oficiais de diferentes unidades militares. O próprio presidente do Estado fez-se representar nas solenidades. O jornal registrou ainda a presença de jornalistas vindos da capital, interessados em acompanhar o regresso dos homens que haviam participado da campanha.
As manifestações prosseguiram durante a noite. Uma passeata percorreu as ruas centrais, reunindo integrantes das comissões paulistas, oficiais do batalhão e representantes de entidades locais. Os participantes passaram pela redação do Diario de Santos, onde foram saudados pelo jornalista Heitor Peixoto. Seguiram depois para a Sociedade Humanitária, sendo recebidos no salão de honra, e visitaram também o quartel de polícia e a sede da Lyra Commercial. Nesta última instituição, os manifestantes receberam uma homenagem de seu presidente, acompanhada de discursos e de um copo de cerveja.
A banda da Lyra Commercial também percorreu diferentes ruas da cidade, chegando ao cais. O movimento estendeu-se até a noite, quando grupos de estudantes continuavam realizando visitas e manifestações de reconhecimento aos militares. O Diario de Santos descreveu o ambiente de entusiasmo com que parte da população acompanhou a chegada dos combatentes.
Uma recepção nem tão calorosa?
Apesar dessa descrição festiva, o episódio guardou uma curiosa contradição. O historiador Olao Rodrigues, em sua Cartilha da História de Santos, publicada em 1980, recuperou informações segundo as quais a recepção aos soldados teria sido surpreendentemente fria. Citando o jornal Tribuna do Povo, dirigido por Olímpio Lima, registrou que os combatentes desfilaram pelas ruas santistas como se estivessem passando por terra estranha.
A observação contrasta com o relato publicado pelo Diario de Santos, que descreveu o porto tomado por curiosos, embarcações acompanhando o cruzador e numerosas manifestações de entusiasmo. Os registros não permitem estabelecer com segurança as razões dessa diferença de percepção. É possível que as homenagens oficiais e a movimentação junto ao cais não tenham correspondido ao acolhimento popular esperado durante a passagem dos militares pelas ruas. De qualquer maneira, as duas versões revelam que o retorno dos combatentes não produziu uma memória inteiramente uniforme.
Santos, que meses antes acompanhara a partida dos soldados para o sertão baiano, tornava-se agora o ponto de passagem de seu regresso. O desembarque do batalhão estava previsto para as 7 horas da manhã de 26 de outubro, quando o cruzador deveria atracar junto ao vapor Catania, nas Docas. Uma composição ferroviária especial, com partida programada para as 8 horas, conduziria os militares e as comissões à capital paulista.

As crianças que vieram de Canudos
Entre todas as informações registradas pelo Diario de Santos, uma das mais impressionantes dizia respeito à presença de crianças sobreviventes de Canudos a bordo do cruzador. O jornal identificou esses pequenos passageiros como “jaguncinhos”, expressão utilizada pela imprensa da época para designar os moradores do arraial, frequentemente apresentados como inimigos da República. Eram crianças que, depois de presenciarem a destruição de sua comunidade, haviam sido levadas pelos militares para longe do sertão onde nasceram.
A reportagem identificou quatro delas. Maria, de apenas três anos, era filha de Pedro Sant’Anna, morto nos combates de 1º de outubro, e viajava acompanhada pelo sargento Gonçalves de Vasconcellos. Seu irmão José, de quatro anos, estava sob os cuidados do capitão Sarmento. Outra menina, Joanna, filha de Amancio, igualmente morto durante os combates daquele dia, havia sido trazida pelo sargento Hermeto da Rocha Leão. O quarto menino identificado era Antonio, de seis anos, filho de Timotheo, também morto em 1º de outubro.
A presença dessas crianças revela uma dimensão especialmente dolorosa da campanha militar. Enquanto os soldados regressavam às suas famílias, pequenos sobreviventes deixavam para trás a terra onde haviam nascido, depois de perder parentes e testemunhar a destruição da comunidade em que viviam. Na linguagem triunfalista predominante na imprensa republicana, eram apresentados quase como uma curiosidade do retorno militar. Sob uma perspectiva histórica, porém, representam algumas das consequências humanas mais dramáticas da guerra.
O documento não esclarece se aquelas crianças possuíam outros familiares vivos, tampouco informa em que condições haviam sido entregues aos militares ou qual destino lhes estava reservado. A ausência dessas informações impede conhecer suas trajetórias posteriores. Seus nomes, contudo, permaneceram preservados nas páginas da imprensa santista, oferecendo um raro registro individual de vítimas que, em sua maioria, desapareceram no anonimato.
Entre a vitória e a tragédia
Naquele outubro de 1897, a República brasileira comemorava o fim da resistência de Canudos como uma vitória militar. O Diario de Santos refletiu esse sentimento ao exaltar a coragem dos integrantes do 1º Batalhão e apresentar a campanha como uma defesa das instituições republicanas. Era a interpretação predominante entre os setores políticos que haviam apoiado as expedições, em um momento em que a destruição do arraial ainda era tratada como uma necessidade para a consolidação do novo regime.
O passar do tempo, entretanto, modificou profundamente a compreensão histórica daquele acontecimento. A Guerra de Canudos passou a ser reconhecida também como uma tragédia social e humana, marcada pela violência desproporcional empregada contra uma população sertaneja submetida à pobreza, ao isolamento e às disputas políticas dos primeiros anos republicanos. Os soldados que regressaram a Santos eram sobreviventes de uma campanha terrível, mas traziam consigo as marcas de uma destruição que atingira milhares de civis.
A chegada do cruzador Andrada ao Porto de Santos reuniu, assim, duas histórias profundamente diferentes. De um lado, a alegria dos militares que retornavam e dos familiares que finalmente podiam abraçá-los. De outro, o sofrimento de crianças retiradas de uma comunidade reduzida a ruínas. Maria, José, Joanna e Antonio não tiveram o destino registrado pelo jornal. Permaneceram apenas seus nomes, suas idades e a lembrança dos pais mortos. Naquele 25 de outubro de 1897, enquanto parte do país celebrava o retorno de seus soldados, Santos recebia também algumas das vítimas mais indefesas de uma guerra que, para elas, estava longe de terminar.
