Em 11 de outubro de 1925, mais de sessenta imigrantes reuniram-se numa casa da Rua General Câmara e criaram uma associação destinada a preservar vínculos, acolher patrícios e transformar a saudade da terra distante em solidariedade.
Santos, 11 de outubro de 1925. Na casa de número 125 da Rua General Câmara, mais de sessenta homens se reuniram carregando consigo lembranças de uma cidade situada a milhares de quilômetros dali. Eram antioquinos, homens que haviam deixado para trás famílias, costumes, sabores, crenças e uma terra cuja própria nacionalidade se tornara difícil de explicar depois da desintegração do Império Otomano. Naquela tarde, provavelmente se ouviram nomes familiares, histórias de parentes que permaneciam no outro lado do oceano e notícias trazidas por cartas que demoravam semanas para atravessar o mundo. A residência pertencia a Yorghaki Estephan e foi ali que nasceu a Sociedade União Antioquina de Santos. Mais de sessenta “patrícios” participaram da assembleia e escolheram Jorge Auad para presidir a nova entidade.
A reunião não havia surgido por acaso. Durante décadas, Santos se transformara numa das grandes portas de entrada de estrangeiros no Brasil. Navios despejavam no cais portugueses, espanhóis, italianos, japoneses e famílias vindas do Oriente Médio. Algumas apenas atravessavam a cidade antes de seguir para São Paulo ou para o interior. Outras desembarcavam e ficavam. Entre essas últimas estavam sírios, libaneses e antioquinos, muitos dos quais encontraram no comércio uma forma de construir a nova vida. Começavam modestamente, algumas vezes amparados por parentes e conterrâneos já estabelecidos, e aos poucos abriam casas comerciais, principalmente nos ramos de tecidos, roupas, calçados, couros e armarinhos.
Os “turcos” de Santos
Havia, porém, uma confusão que começava já nos documentos oficiais. No recenseamento municipal de 1913, Santos possuía 88.967 habitantes e registrava 880 pessoas como “turcas”. A denominação tinha pouco a ver com a identidade que muitos daqueles homens e mulheres atribuíam a si próprios. Como haviam nascido em territórios então submetidos ao Império Otomano, entravam nas estatísticas sob uma mesma classificação, que reunia sírios, libaneses, antioquinos e outros povos. Para o funcionário que preenchia o registro, eram turcos. Para eles próprios, as diferenças de origem, religião, cidade e família tinham enorme importância.

Entre aqueles imigrantes estavam os homens e mulheres provenientes de Antióquia, uma das cidades mais antigas do Oriente. A região vivera anos especialmente turbulentos. A Primeira Guerra Mundial encerrara séculos de domínio otomano e redesenhara fronteiras. Famílias se separaram e comunidades inteiras foram obrigadas a conviver com uma geografia política em transformação. Quem havia partido levava consigo uma identidade que não desaparecia simplesmente porque o navio atracara em Santos. Ao contrário, a distância parecia torná-la ainda mais preciosa.
Santos oferecia oportunidades, mas também impunha dificuldades. O idioma era outro. Os costumes eram diferentes. Para quem acabava de chegar, encontrar um patrício podia significar conseguir hospedagem, emprego, mercadoria para iniciar uma pequena atividade comercial ou simplesmente alguém capaz de explicar como funcionava aquela cidade desconhecida. As redes familiares e comunitárias tiveram papel decisivo na trajetória dos imigrantes árabes que se estabeleceram na cidade.
Uma casa na General Câmara
Foi nesse ambiente que os antioquinos decidiram organizar formalmente o auxílio que já praticavam entre si. Na reunião de 11 de outubro, Jorge Auad foi eleito presidente. Ao lado dele, a primeira diretoria reuniu Miguel Bittar, Amim Wakil, João Nagib Cury, Wadih Cabariti, Simão Maxta, Gabriel Tanjan, João Bechara Maxta, Jorge Nicola Abdul-Hak, Jorge Shammas, Amim Lascani, Felipe Jamal e Michail Kodja. Os sobrenomes, posteriormente incorporados à própria vida santista, revelavam naquele momento a existência de uma comunidade que começava a criar raízes profundas na cidade.
Nascia assim a Sociedade União Antioquina de Santos. Sua finalidade estava ligada à confraternização entre os patrícios, mas também à assistência. A associação oferecia aos recém-chegados algo difícil de medir em dinheiro: uma referência. Dentro daquele grupo havia pessoas que falavam a mesma língua, conheciam as mesmas tradições e compreendiam o que significava chegar a um país distante sem dominar inteiramente seus códigos. O auxílio podia assumir formas práticas, mas havia também um amparo afetivo. Reunir-se significava recriar, ainda que por algumas horas, uma parte da terra que havia ficado para trás.
A própria escolha de criar uma sociedade demonstrava que aqueles imigrantes já não encaravam Santos apenas como lugar de passagem. Suas vidas começavam a se incorporar definitivamente à cidade. Trabalhavam, compravam imóveis, abriam estabelecimentos comerciais, constituíam famílias e criavam filhos brasileiros. Antióquia continuava presente na memória, mas Santos passava a ocupar o cotidiano.
Da saudade à Beneficência
Com o passar dos anos, aquela rede de auxílio ultrapassou os limites da própria colônia. A Sociedade União Antioquina passou a desenvolver atividades assistenciais e seu Departamento Feminino criou a Oficina D. Alexandrina Bechara, dedicada à confecção de roupas destinadas a pessoas necessitadas e instituições filantrópicas. Também eram realizados auxílios a idosos e pessoas com deficiência, além do encaminhamento de necessitados a hospitais e casas de repouso. Entre as instituições apoiadas apareceram entidades tradicionalmente ligadas à comunidade árabe, como a Sociedade Mão Branca, o Orfanato Sírio de São Paulo e o Sanatório Sírio de Campos do Jordão.
Décadas depois, a vocação solidária ainda permanecia reconhecível. Em agosto de 2004, por exemplo, a sede da Sociedade União Antioquina, então localizada na Rua Mato Grosso, 404, recebeu uma ação do Fundo Social de Solidariedade de Santos destinada à arrecadação de alimentos para a Creche São Jorge, mantida pela Sociedade Filantrópica Católica Ortodoxa, e para a Sociedade de Amor à Criança Arcanjo Rafael. A associação fundada em uma residência particular havia se tornado parte da rede assistencial da própria cidade.
Uma Antióquia Santista
Naquele 11 de outubro de 1925, porém, nada disso ainda poderia ser conhecido pelos homens reunidos na Rua General Câmara. Eles possuíam apenas suas memórias, seus sobrenomes, os vínculos construídos pela origem comum e a vontade de permanecer próximos numa cidade que aprendiam a chamar de casa. Talvez alguns ainda imaginassem regressar um dia. Outros provavelmente já percebessem que seus filhos cresceriam falando português e que Antióquia seria conhecida por eles principalmente pelas histórias contadas à mesa.
Santos havia crescido justamente assim. Entre o cais e as ruas comerciais, acumulavam-se sotaques e pequenas pátrias. Portugueses criavam suas sociedades, espanhóis formavam centros, japoneses construíam associações e os povos vindos do antigo Império Otomano buscavam maneiras de preservar seus vínculos. A cidade absorvia essas comunidades e, ao mesmo tempo, era transformada por elas.
Na casa de Yorghaki Estephan, naquele domingo de outubro, mais de sessenta antioquinos haviam decidido que a distância não apagaria aquilo que os unia. Fundaram uma sociedade para cuidar uns dos outros. Sem perceber, ajudaram também a escrever outra história: a de uma Santos que aprendera a receber pessoas vindas de terras muito distantes e que acabara guardando, em suas ruas, famílias e instituições, pequenos pedaços do mundo.

