A Matriz que ainda não estava pronta

Em 4 de outubro de 1924, uma grande procissão atravessou o Centro de Santos para inaugurar o templo ainda inacabado que, meses depois, se tornaria a Catedral da cidade.

Santos, 4 de outubro de 1924. Quando o relógio se aproximou das seis da tarde, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário começou a viver uma despedida silenciosa de uma função que exercera por tantos anos. De suas portas saiu uma imponente procissão, acompanhada por numeroso grupo de fiéis e pela banda do Corpo Municipal de Bombeiros. O cortejo tomou a Rua do Rosário, seguiu pela Senador Feijó e avançou em direção à Praça José Bonifácio. Levava consigo imagens do Sagrado Coração de Jesus, de Nossa Senhora do Rosário Aparecida, de Nossa Senhora da Graça, de São José, Santo Antônio, Santa Inês e Santa Mônica. Ao fim do percurso, erguia-se o destino daquela caminhada: um enorme templo ainda inacabado, mas profusamente iluminado, que naquela noite abriria oficialmente suas portas como a nova Matriz de Santos.

Por fora, a construção ainda denunciava o longo caminho que restava. Havia partes por concluir, acabamentos por executar e uma monumentalidade que ainda não alcançara sua forma definitiva. Por dentro, porém, o templo já reunia condições para receber os fiéis. E isso bastava naquele sábado. Depois de anos de espera, Santos voltava a possuir uma grande igreja matriz. O jornal que registrou a solenidade no dia seguinte foi preciso ao anunciar o acontecimento: inaugurava-se a “Matriz Nova, futura Cathedral de Santos”.

A velha Matriz, de 1746, demolida em 1908.

Uma cidade sem sua velha matriz

A história daquela noite começara muito antes. A antiga Matriz de Santos, que durante séculos ocupara lugar fundamental na vida religiosa e social da cidade, desaparecera no início do século XX. Sua demolição, em 1907, abrira um vazio que não era apenas arquitetônico. Em uma cidade que crescia depressa, enriquecida pelo café e transformada pela expansão portuária, desaparecer também significava romper uma referência afetiva de gerações de santistas.

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário assumira então, provisoriamente, as funções de Matriz. O provisório, entretanto, duraria muitos anos. Batizados, casamentos, funerais, celebrações e festas religiosas continuaram acontecendo enquanto se discutia e se construía o templo que substituiria o antigo. Era uma Santos em transformação, na qual casarões desapareciam, ruas mudavam de feição e novos edifícios procuravam representar a prosperidade de uma cidade que se via cada vez mais ligada ao mundo.

A pedra fundamental da nova Matriz foi lançada em 1909. O projeto nasceu ambicioso. Não se pretendia apenas erguer uma igreja funcional, mas construir um templo capaz de traduzir em pedra a importância alcançada por Santos. Os anos seguintes, porém, mostrariam que projetos monumentais exigiam paciência. A obra avançou lentamente, atravessou dificuldades, consumiu esforços sucessivos e dependeria durante décadas do empenho de religiosos, comissões e colaboradores.

A procissão rumo à nova Matriz

Naquele 4 de outubro, a espera encontrava finalmente uma espécie de recompensa. A comissão executiva das obras reunia os cônegos Benedicto Marcos de Freitas e Antonio Teixeira de Assumpção Netto, Wallace Cochrane Simons, Atto Macuco Borges, major José Evangelista de Almeida e Antonio Augusto dos Santos. Era essa comissão que, simbolicamente, entregaria o templo à Igreja.

Quando a procissão alcançou a Praça José Bonifácio, a cena devia ter impressionado quem se encontrava nas imediações. A nova Matriz ainda guardava o aspecto de obra, mas estava iluminada para receber a multidão. As imagens religiosas que haviam deixado o Rosário penetraram no novo templo acompanhadas pelos fiéis. A banda dos Bombeiros, cedida pelo prefeito em exercício, Arnaldo Ferreira de Aguiar, ajudava a transformar o percurso em solenidade pública.

No interior da igreja, ocorreu um dos gestos mais simbólicos daquela noite. A comissão executiva entregou as chaves do edifício a Dom Duarte Leopoldo e Silva, arcebispo metropolitano de São Paulo. O prelado recebeu-as, realizou a bênção e destacou os esforços daqueles que haviam tornado possível a construção. Naquele instante, a chave deixava de representar apenas o acesso a um edifício. Era a entrega de uma nova casa religiosa à cidade.

Projeto da Catedral

Inaugurada, mas ainda inacabada

A solenidade não escondia uma realidade evidente. A Matriz estava aberta, mas ainda não estava pronta. O próprio jornal registrou que as obras não haviam sido definitivamente concluídas, embora o acabamento interior permitisse receber os fiéis. Essa condição aparentemente contraditória acabaria se transformando numa das características mais marcantes da história do templo. Santos inaugurava uma igreja que continuaria sendo construída durante décadas.

As celebrações prosseguiriam no domingo, 5 de outubro. Às sete horas, outra procissão sairia da Igreja do Rosário levando o Santíssimo Sacramento para a nova Matriz. Às oito, Dom Duarte Leopoldo celebraria missa. Às dez, haveria missa cantada solene, regida pelo maestro Leonardo de Castro, e, às dezenove horas, seria realizado o Te Deum Laudamus em ação de graças. Durante dois dias, a cidade acompanharia a passagem simbólica entre dois templos.

Poucos meses depois, aquela “futura Cathedral” anunciada pela imprensa ganharia efetivamente essa condição. A organização religiosa da cidade também mudava, acompanhando o crescimento de Santos e sua importância regional. O edifício, entretanto, continuaria recebendo obras, acabamentos e intervenções por muitos anos. Apenas décadas mais tarde seria considerado concluído.

Na noite de 4 de outubro de 1924, porém, nada disso precisava estar terminado. Bastava que as portas estivessem abertas. Sob a iluminação do templo ainda incompleto, os santistas entraram pela primeira vez naquela que se tornaria uma das construções religiosas mais reconhecidas da cidade. Atrás deles ficava a Igreja do Rosário, que durante anos acolhera provisoriamente a Matriz. À frente, erguia-se uma Catedral que Santos ainda levaria muito tempo para terminar, mas que, naquela noite, já começava a pertencer definitivamente à cidade.